Fechar o ano sem revisar as contas é como arquivar um processo sem ler a sentença: parece resolvido, mas um detalhe pode custar caro. Em escritórios de advocacia, onde honorários variam por caso e município, o fim de ano exige um olhar minucioso para não levar passivos para janeiro.
O que muda o jogo para a banca: organização com método, visão de caixa e tributos, e um roteiro claro. A rotina jurídica já é intensa, e é comum ver notas, ISS, eSocial e DCTFWeb se acumulando nas últimas semanas. Um checklist contábil de fim de ano escritório de advocacia dá direção, reduz risco e libera o time para focar nos clientes.
Por que o básico falha: planilhas genéricas ignoram realidades da advocacia — ISS por município, retenções na fonte, pró-labore subdimensionado, distribuição de lucros sem lastro contábil e férias vencidas. Esses “detalhes” viram glosa, multa ou falta de caixa quando você menos espera.
O que você vai encontrar aqui: um guia prático, direto ao ponto e pensado para bancas brasileiras. Vamos da conferência de receitas e notas ao fechamento de folha e 13º, passando por pró-labore, lucros e decisões tributárias para o próximo ano. Você sai com prioridades, checkpoints e exemplos do dia a dia para fechar o ano com tranquilidade.
Conferência de receitas e notas emitidas
Fechamento sem sustos: aqui você valida tudo que entrou no caixa com notas, contratos e impostos certos. A meta é sair com receitas conferidas, NFS-e corretas e retenções tratadas.
Fechamento de honorários: conciliação entre contratos, boletos, Pix e extratos bancários
Reconcilie por competência: confira contratos, boletos e Pix contra os extratos do mês e o que foi efetivamente prestado. Honorários recorrentes emitem nota no mês do serviço, pois o serviço, não pagamento, é o fato gerador.
No meu dia a dia, começo pelo contrato, passo pelos relatórios de boletos/Pix e fecho no banco. Divergência? Emita NFS-e complementar ou peça cancelamento no prazo do município. Para honorários de êxito ou sucumbência, emita NFS-e ao receber, anexando o comprovante judicial no dossiê.
Notas fiscais eletrônicas: NFS-e por município, RPS, cancelamentos e ISS retido na fonte
NFS-e por município: verifique credenciamento, subitem correto e campos de retenção. Na advocacia, use o Item 17.14 LC 116 e confira se há ISS entre 2% e 5% ou retenção na fonte pelo tomador.
Quando emitir RPS, converta em NFS-e dentro do prazo local e guarde o protocolo. Se houver ISS retido, marque o campo e preencha o valor — o sistema não calcula sozinho. Acompanhe as notas técnicas NFS-e nacionais para regras de local da incidência e integrações.
Retenções e impostos sobre serviços: IRRF, INSS, PIS/Cofins (quando aplicável) e base de ISS por CNAE
Cheque as retenções-chave: serviços profissionais podem sofrer IRRF de 1,5% (DARF 1708), cessão de mão de obra aciona INSS de 11% e alguns tomadores aplicam CSRF 4,65% (PIS/Cofins/CSLL). A base de ISS na advocacia segue o Item 17.14 LC 116.
Empresas do Simples costumam não sofrer IRRF/CSRF com a declaração do Simples entregue ao tomador. Há dispensa de retenção quando o tributo calculado fica em torno de R$ 10,00 por pagamento, conforme regras federais vigentes. INSS retém só em cessão de mão de obra. ISS varia por município e contrato; valide antes de faturar.
Adiantamentos, reembolsos e custas processuais: classificação contábil e documentos comprobatórios
Documento comprobatório primeiro: classifique adiantamentos do cliente como passivo até a prestação do serviço. Reembolsos pedem nota do terceiro e vínculo ao contrato. Custas e despesas de processo entram no dossiê com guias e recibos.
Um erro comum que vejo é misturar reembolso com receita. Separe centros de custo, anexe o comprovante do tribunal e descreva no histórico contábil. Sem papel, vira glosa. Com lastro, você protege caixa e evita refações.
Conciliação bancária do período: centros de custo por área do direito e conferência de PIX/boletos
Concilie tudo no extrato: amarre cada entrada ao contrato e à NFS-e, marcando o centro de custo (cível, trabalhista, tributário). Confirme IDs de Pix e boletos com o ERP e ajuste diferenças.
Gosto de fechar por semana no fim do ano. Isso reduz pendências acumuladas. Fechou? Gere um relatório de pendências (notas a emitir, retenções a recolher e cancelamentos abertos) e trate antes do balanço.
Pró-labore, lucros e retiradas do ano
O objetivo aqui é simples: fechar o ano com retiradas claras, tributos certos e zero pendências com os sócios. Vamos ajustar pró-labore, lucros e adiantamentos com documentos em ordem.
Definição do pró-labore e INSS: valor mínimo, periodicidade e recibos em dia
Pague pró-labore mensal: defina um valor regular, use como referência o salário mínimo de 2026 (R$ 1.621,00) e desconte INSS de 11% até o teto. Aplique o IR pela tabela mensal e mantenha recibos e eSocial em dia.
No Anexo IV do Simples (comum na advocacia) há CPP 20% Anexo IV paga por fora, via DCTFWeb. O teto do INSS em 2026 é R$ 8.475,55, então o desconto máximo do sócio fica em torno de R$ 932,31. Pela Lei 15.270/2025, há IR até R$ 5.000 com redução que pode zerar o IR mensal nessa faixa.
Distribuição de lucros: requisitos contábeis no Simples, Presumido e Real para blindagem fiscal
Lucros com lastro: só distribua com escrituração e ata aprovando o valor. No Simples, sem contabilidade completa, use a Regra dos 32% (serviços) como limite isento calculado sobre a receita.
A isenção do art. 10 da Lei 9.249/1995 segue valendo, com uma exceção desde 2026: há 10% acima de R$ 50 mil por mês pagos a um mesmo sócio. Abaixo desse patamar, a distribuição segue isenta. Guarde balancetes, demonstrações e a ata de deliberação no dossiê.
Adiantamentos a sócios e despesas pessoais: como identificar e regularizar antes do fechamento
Regularize adiantamentos já: identifique saídas sem lastro como “adiantamentos a sócios”. Antes do balanço, escolha: devolver, compensar com lucros deliberados ou formalizar mútuo com contrato.
Despesas pessoais no cartão da empresa? Estorne e reclassifique com documento comprobatório. Mistura de contas vira glosa e pode afetar a isenção de lucros. Separe tudo no razão e descreva no histórico.
Ata societária e livro caixa: documentação de suporte para auditorias e relacionamento bancário
Registre em ata: aprove pró-labore, distribuição e política de retiradas. Colha assinaturas e arquive com o balancete.
Ata e livro diário: mantenha diário, razão, livro caixa e recibos de pró-labore. Bancos e auditorias pedem esses papéis para crédito, compliance e conferência de origem de recursos.
Planejamento de retiradas para o próximo ano: impacto em fluxo de caixa e tributação efetiva
Planeje retiradas anuais: combine pró-labore com IR até R$ 5.000 e lucros dentro do limite mensal de R$ 50.000 por sócio para evitar o IRRF de 10%. No Anexo IV, simule a CPP 20% Anexo IV no custo total.
Exemplo prático: pró-labore de R$ 5.000 pode ter IR zerado pela regra de 2026, com INSS de 11% limitado ao teto. Lucros de R$ 45.000 no mês seguem isentos; acima de R$ 50.000, aplica-se 10% acima de R$ 50 mil. Trace um calendário de pagamentos para não estourar caixa.
Folha, férias e décimo terceiro
Feche a folha com método: alinhe prazos do eSocial e DCTFWeb, acerte 13º e férias e deixe benefícios e saúde ocupacional redondos. Isso evita multa e retrabalho no início do ano.
Fechamento de eSocial e DCTFWeb: prazos críticos e conferências de base de cálculo
Envie eSocial até o dia 15: transmita S-1200, S-1210 e feche o S-1299 na data. Gere a DCTFWeb e pague o DARF previdenciário até o dia 20; o FGTS Digital também vence no dia 20.
Revise bases de cálculo: salários, adicionais, médias, afastamentos e descontos. Para o 13º, os eventos de folha anual vão de 1º a 20 de dezembro. Confirme se o que está no eSocial bate com a guia gerada na DCTFWeb e com o extrato do FGTS Digital.
13º salário: cálculo, provisionamento e encargos sobre encargos (efeito cascata)
Pague 1ª até 30/11 e 2ª até 18/12: em 2026 o dia 20 é domingo, então antecipe a segunda parcela. O 13º é 1/12 por mês com 15 dias ou mais.
A primeira parcela sai sem descontos; a segunda concentra INSS e IR. Deposite FGTS de 8% sobre cada parcela. Provisione o 13º ao longo do ano e lembre dos reflexos nas contribuições, o chamado “efeito cascata”. Recalcule médias de comissões e adicionais antes de pagar.
Férias vencidas e programadas: regularização, provisões e acordos coletivos aplicáveis
Quite férias vencidas e agende as próximas: comunique com antecedência e pague até 2 dias antes do início. Considere o adicional de 1/3 constitucional.
Provisione férias e encargos mês a mês para não estourar caixa. Se houver acordo ou convenção, siga as regras de período, fracionamento e feriados. Registre no sistema de folha e anexe os recibos assinados.
Benefícios e estagiários: vale, auxílio, e particularidades de PJ x CLT em bancas jurídicas
Revise benefícios e contratos: valide política de vale-transporte, vale refeição/ alimentação e plano de saúde, com coparticipações e descontos corretos no holerite.
Para estagiários, confira termo de compromisso, bolsa e recesso, pois não seguem o mesmo rito de CLT e 13º. Em bancas com PJ e CLT, separe regras: benefícios, prazos e documentos mudam por vínculo. Feche o ano com relatórios por colaborador.
Saúde ocupacional: ASO, PCMSO e gestão de riscos trabalhistas no escritório
ASO e PCMSO em dia: atualize exames admissionais, periódicos e de retorno, e mantenha o PCMSO vigente. Arquive laudos e atestados no dossiê do empregado.
Registre os eventos de SST no eSocial conforme sua rotina e mantenha controles simples de prazos. Escritórios têm risco menor, mas a ausência de documentos de SST gera autuação. Fechar o ano com o kit de saúde ocupacional completo traz paz para janeiro.
Decisões tributárias para o ano seguinte
Hora de decidir com calma: aqui você escolhe o regime, ajusta ISS e retenções, define política de retiradas e organiza prazos. Um plano claro evita sustos e reduz a carga efetiva já no início do ano.
Enquadramento: Simples Nacional vs. Lucro Presumido vs. Real na advocacia e seus impactos
Escolha com simulação: compare Simples Anexo IV com o Presumido 32% e o Lucro Real. Olhe faturamento, folha e ISS local para achar a menor carga efetiva.
No Simples, a advocacia fica no Anexo IV, com alíquota inicial de 4,5% e CPP fora do DAS. No Presumido, IRPJ e CSLL partem de base de 32% da receita, somando PIS 0,65% e Cofins 3% (cumulativo), o que dá cerca de 11,33% federais antes do ISS e do adicional. Em cenários com ISS fixo reconhecido no município, o Presumido pode ganhar; análises de mercado indicam vantagem frequente do Simples na advocacia, mas confirme com números do seu escritório.
ISS por município e retenções: contratos com empresas privadas e órgãos públicos
Mapeie alíquotas e retenções: confirme o ISS 2% a 5% por cidade, o Item 17.14 na NFS-e e as cláusulas de retenção em contratos, sobretudo com órgãos públicos.
Sociedades de advogados podem pleitear ISS fixo por sócio se forem reconhecidas como uniprofissionais pelo município, conforme o Decreto-Lei 406/1968, quando houver previsão local. Em contratos públicos, o ISS costuma ser retido na fonte; valide se a NFS-e está marcada corretamente para evitar diferença no caixa.
Distribuição de lucros e pró-labore: cenários práticos para reduzir risco e manter liquidez
Combine pró-labore e lucros: mantenha lucros com lastro contábil e pró-labore regular. Desde 2026, há retenção de 10% sobre lucros pagos a um mesmo sócio que excedam R$ 50 mil/mês.
A isenção de lucros segue a regra do art. 10 da Lei 9.249/1995 quando apurados corretamente. Há debate sobre a aplicação automática da retenção a optantes do Simples, então formalize a apuração, delibere em ata e documente os pagamentos para reduzir risco.
Investimentos dedutíveis e priorização: capacitação, tecnologia, compliance e governança
Invista com critério: no Simples e no Presumido, gastos não reduzem o DAS nem a base presumida. No Lucro Real, despesas necessárias, usuais e comprovadas são dedutíveis.
Dê prioridade a capacitação, tecnologia (ERP, NFS-e, BI), compliance e governança que cortem horas operacionais e erros fiscais. Se considerar migrar para o Real, construa política documental e controles para aproveitar deduções com segurança.
Calendário fiscal e obrigações acessórias: cronograma enxuto para o primeiro trimestre
Monte o Q1 agora: alinhe envios de eSocial, DCTFWeb e EFD-Reinf com a apuração do PGDAS-D ou do Presumido/Real. Programe pagamentos e revisões de cadastro da NFS-e por município.
Feche um roteiro com checagem de limites do Simples, política de pró-labore e lucros, e conferência de cláusulas de ISS/retensão nos contratos-chave. Agende uma reunião com o contador para validar o plano e assinar as atas necessárias.
Conclusão: feche o ano sem pendências
Feche o ano sem pendências: confira receitas e NFS-e por município, ajuste pró-labore e lucros com lastro contábil, quite folha, férias e 13º e já deixe as decisões tributárias do próximo ano desenhadas. Um fechamento limpo protege caixa, reduz risco e começa janeiro no azul.
Se você quer transformar esse checklist em ação, conte com quem vive a rotina de bancas jurídicas. Solicite um checklist final com a Solutte Contabilidade: fazemos revisão de NFS-e e retenções, validamos folha, eSocial e DCTFWeb, organizamos pró-labore e distribuição e entregamos a simulação de regime para 2027 com um plano claro de execução.
Key Takeaways
Use este checklist contábil de fim de ano para escritórios de advocacia e alinhe receitas, tributos, folha e decisões estratégicas, garantindo um janeiro com caixa e sem pendências:
- Concilie receitas e NFS-e por município: Amarre contratos, boletos e Pix aos extratos; use item 17.14, valide ISS 2–5% e retenções na NFS-e; cancele/complete dentro do prazo.
- Cheque retenções obrigatórias: Confirme IRRF 1,5%, CSRF 4,65% quando aplicável e INSS 11% apenas em cessão de mão de obra; no Simples, a declaração pode dispensar IRRF/CSRF.
- Acerte pró-labore e INSS: Baseie no salário mínimo 2026 (R$ 1.621), desconte 11% até o teto (R$ 8.475,55; máx. ~R$ 932,31) e recolha CPP 20% do Anexo IV via DCTFWeb.
- Distribua lucros com lastro: Apoie-se em balancetes e ata; desde 2026, retenha 10% quando um sócio receber mais de R$ 50 mil no mês; sem escrituração no Simples, respeite a presunção de 32%.
- Feche folha, eSocial e FGTS no prazo: Envie S-1200/1210/1299 até dia 15; quite DCTFWeb e FGTS Digital até dia 20; 13º: 1ª até 30/11 e 2ª até 18/12/2026; deposite 8% de FGTS por parcela.
- Regularize férias, benefícios e SST: Pague férias até 2 dias antes com 1/3; revise VT, VR/VA e saúde; confira recesso de estagiários; mantenha ASO e PCMSO atualizados.
- Simule o regime para 2027: Compare Simples Anexo IV (alíquota inicial 4,5% e CPP fora do DAS) com Presumido (32% de base; ~11,33% federais) e Real; avalie ISS fixo por sócio quando previsto.
- Fortaleça documentação e calendário: Organize ata, livro diário/caixa e dossiês; concilie por centro de custo; defina um cronograma enxuto para o 1º trimestre com PGDAS-D/EFD-Reinf.
Fechar o ano limpo é disciplina aplicada: números conferidos, documentos em ordem e decisões tributárias antecipadas protegem o caixa e a estratégia da banca.
FAQ — Fim de Ano Contábil para Escritórios de Advocacia
O que conferir antes de fechar o ano?
Receitas e NFS-e por município (item 17.14), retenções (ISS 2%–5%, IRRF 1,5%, CSRF 4,65% quando aplicável), pró-labore e INSS (11% até o teto), folha, eSocial/DCTFWeb (envios até dia 15, guias até dia 20), FGTS Digital (dia 20), provisões de férias e 13º (1ª até 30/11 e 2ª até 18/12 em 2026), conciliação bancária e regularização de adiantamentos e reembolsos com documentos.
Quando distribuir os lucros do ano?
Depois da apuração contábil e da ata aprovando valores. Priorize distribuição com lastro (balancetes e DRE). Desde 2026, se um sócio receber acima de R$ 50 mil no mês, há IRRF de 10%. No Simples, sem escrituração completa, use o limite isento calculado pela presunção; com contabilidade, é possível isenção sobre o lucro efetivo.
Preciso revisar o regime tributário em dezembro?
Sim. Simule 12 meses comparando Simples (Anexo IV, CPP fora do DAS) com Lucro Presumido (base 32% + PIS/Cofins + ISS) e, se fizer sentido, Lucro Real. Considere ISS do município (ou ISS fixo por sócio quando previsto), folha e perfil de clientes. A opção para o Simples do próximo ano ocorre até o fim de janeiro.
Quais documentos enviar ao contador?
Extratos bancários, contratos, relatórios de boletos/Pix, NFS-e/RPS e comprovantes de retenção, holerites e eventos do eSocial, DCTFWeb e DARF, guias do FGTS Digital, recibos de pró-labore e INSS, atas societárias, balancetes/DRE, comprovantes de custas e reembolsos, calendário de férias e 13º e pendências a regularizar.
Como preparar o escritório para o IR dos sócios?
Separe informe de pró-labore (rendimentos tributáveis), INSS retido, relatório de lucros distribuídos (isentos) com ata e balancetes, reembolsos e mútuos documentados. Planeje retiradas mensais abaixo de R$ 50 mil por sócio quando possível, para evitar IRRF de 10%. Mantenha finanças da PJ e PF separadas e arquivos organizados.





